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Liberação do uso de sementes transgênicas e aumento do uso de agrotóxicos. Há relação?

O Brasil mantém, desde 2010, a posição de maior consumidor mundial de agrotóxicos e os transgênicos, liberados no país, incentivam o aumento do consumo de venenos agrícolas. Essas são duas constatações do dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), intitulado “Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde” e lançado em 28 de abril deste ano.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA), ao longo dos últimos anos, tem apoiado e participado de diferentes movimentos e ações de enfrentamento aos agrotóxicos. Em documento, o Inca se posiciona contra as atuais práticas de uso de agrotóxicos no Brasil e ressalta seus riscos à saúde, em especial nas causas do câncer.

Números

Os agrotóxicos nada mais são que produtos químicos sintéticos utilizados para matar insetos ou plantas no ambiente rural e urbano. No Brasil, a venda de agrotóxicos saltou de US$ 2 bilhões para mais de US$7 bilhões entre 2001 e 2008, alcançando valores recordes de US$ 8,5 bilhões em 20111 . Assim, já em 2009, alcançamos a indesejável posição de maior consumidor mundial de agrotóxicos, ultrapassando a marca de um milhão de toneladas, o que equivale a um consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante.

De acordo com o documento do Inca, “a liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi uma das responsáveis por colocar o país no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exigem o uso de grandes quantidades destes produtos”.

O dossiê da Abrasco, além de afirmar que existe relação entre o aumento da área plantada com transgênicos e o consumo de agrotóxicos, informa outros números que mostram o impacto do consumo de agrotóxicos para a saúde pública. O dossiê afirma que 64% dos alimentos estão contaminados pelos venenos, de acordo com números de 2013 levantados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. O DataSUS, do Ministério da Saúde, registra 34.147 notificações de intoxicação por agrotóxico entre 2007 e 2014.

Malefícios

Ainda em documento, o Inca alerta para os malefícios causados por esse modelo de cultivo, que faz uso intenso de agrotóxicos, gerando poluição ambiental e intoxicação de trabalhadores e da população em geral.

As intoxicações agudas por agrotóxicos são as mais conhecidas e afetam, principalmente, as pessoas expostas em seu ambiente de trabalho (exposição ocupacional). São caracterizadas por efeitos como irritação da pele e olhos, coceira, cólicas, vômitos, diarreias, espasmos, dificuldades respiratórias, convulsões e morte. Já as intoxicações crônicas podem afetar toda a população, pois são decorrentes da exposição múltipla aos agrotóxicos, isto é, da presença de resíduos de agrotóxicos em alimentos e no ambiente, geralmente em doses baixas. Os efeitos adversos decorrentes da exposição crônica aos agrotóxicos podem aparecer muito tempo após a exposição, dificultando a correlação com o agente. Dentre os efeitos associados à exposição crônica a ingredientes ativos de agrotóxicos podem ser citados infertilidade, impotência, abortos, malformações, neurotoxicidade, desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imunológico e câncer.

Outro modelo de plantio

O dossiê da Abrasco propõe a mudança de um modelo agrícola sem agrotóxicos nem transgênicos. Para a engenheira agrônoma Flávia Londres, tal possibilidade deve ser vista na perspectiva de um conjunto amplo de mudanças: “Precisamos de um amplo processo de reforma agrária, que possibilite às famílias agricultoras produzir alimentos em escala compatível com a lógica dos sistemas de base agroecológica”. A engenheira afirma também que o “sistema de crédito para a agricultura precisa deixar de induzir os agricultores a adotarem o pacote tecnológico que inclui sementes transgênicas, adubos químicos e agrotóxicos”.

Ainda que haja bastante discussão sobre o assunto, o setor de agrotóxicos continua a crescer. De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindveg), o setor cresceu, em 2014, 6,9% em relação ao ano anterior e movimentou cerca de US$ 12 bilhões.

Fonte: Portal Fiocruz 

Fonte: Inca