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O chá de hibisco deve ter mesmo seu consumo restringido?

Autor: Rafael Ventura

A Internet está cheia de informação para qualquer um que queira acessá-la. Mas, nem todas são verídicas. Há muita verdade, e isso é um fato, e há muita mentira e terrorismo ditos por pessoas que muitas vezes não entendem do assunto. Recentemente falamos da chia e o terror midiático que ronda a semente. Hoje falaremos do tão conhecido e explorado chá de hibisco. Afinal, faz bem consumi-lo ou é preciso parar para ontem? Vamos entender o assunto?

O chá de hibisco x propriedades medicinais

O chá de Hibiscus Sabdariffa (Roselle) deriva principalmente do cálice da planta, mas também pode conter sua flor. Mas são nos cálices que encontramos as antocianinas, molécula responsável pela sua coloração característica bem como suas propriedades medicinais. Embora seja utilizada para uma variedade de fins medicinais, existem evidências que suportam seu papel na redução da pressão sanguínea em pessoas com quadro de hipertensão (lembrando, claro, que a magnitude desses benefícios podem variar de pessoa para pessoa).

Em relação às terapias no controle da glicemia não existem muitos estudos que consolidam esse tipo de intervenção. No entanto, algumas pesquisas revelam que o chá de hibisco parece inibir fracamente as enzimas-chave na absorção de carboidratos, impactando na glicemia plasmática (terapia anti-diabettes).

Perda de peso x consumo do chá

Muito tem se discutido sobre a perda de peso com infusões de Hibiscos. A interação do Hibisco com a perda de peso não está claramente elucidada. Todavia, alguns estudos associam como seu principal efeito a redução do apetite em ratos, mais do que a queima de gordura (termogênese) propriamente dita, embora nenhum efeito semelhante tenha sido demonstrado em humanos. Outra característica correlacionada com a perda de peso é sua capacidade diurética. Infusões de Hibiscos tendem a eliminar água e sódio e poupar o potássio do nosso corpo, esse processo leva a diminuição da retenção hídrica sem risco a saúde.

O chá x infertilidade

Alguns artigos em mídias sociais noticiaram e noticiam os problemas de infertilidade associados ao consumo do Hibiscos na forma de chás. Não existe nenhum estudo que tenha investigado efeitos colaterais na capacidade reprodutiva em humanos. O Hibisco parece interferir na morfologia (forma) dos espermatozoides em ratos, influenciando na fertilidade dos animais tratados. Em fêmeas de ratos, uma série de estudos sugerem que o Hibisco pode levar ao nascimento de crias com peso anormal (mais pesados) e retardo da puberdade das proles. Muitos desses efeitos foram atribuídos a supressão de apetite das fêmeas de ratos prenhas, levando a um quadro de mal nutrição materna.

As doses do chá x toxidade

É bem documentado na literatura científica a toxidade do Hibiscus Sabdariffa. Não se sabe com clareza que compostos são esses, mas a maioria dos efeitos indesejáveis ocorreram com doses de 200mg/kg ou superior, em ratos. Para humanos doses de até 2,2g do cálice drenado para 68kg por dia parece não apresentar nenhum efeito toxicológico.

Altas doses do chá de hibisco talvez possam exercer efeitos tóxicos no nosso organismo embora nenhum desses efeitos tenham sido reportados em humanos por não serem conclusivos ou mesmo pela escassez dos mesmos. Seria prudente então, evitar tomar em demasia, especialmente porque seus inúmeros benefícios que não foram contemplados por essa matéria não são doses dependentes, significa dizer que doses maiores que 2,2g do cálice seco para 68kg por dia (ou 32 mg/kg por dia) podem ser tóxicas sem ter aumento das propriedades benéficas dessa planta.

Ou seja, não se preocupe! Pode continuar tomando seu chá de hibisco diluído em bastante água (1 litro ou mais) com no máximo de 2,2g do cálice seco por dia.

Dica: fracione seu consumo em pelo menos duas vezes ao longo do tempo (manhã e tarde) e continue apreciando essa maravilha sem terrorismos.

 

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