O péssimo padrão alimentar da sociedade moderna rico em alimentos industrializados, com excesso de carboidratos nos conduziu a uma grave epidemia de obesidade e ao aumento das doenças metabólicas como a resistência à insulina, acúmulo excessivo de gordura visceral, doenças cardiovasculares, dislipidemia e a esteatose hepática particularmente quando associadas a um estilo de vida sedentário.
Nós seres humanos, assim como os outros animais, evoluímos em ambientes onde o alimento era relativamente escasso, desenvolvemos numerosas adaptações que nos permitiram funcionar a um nível elevado, tanto físico como cognitivo, quando estamos em estado de privação alimentar, ou seja, em jejum. Inclusive muitas culturas e religiões realizam o jejum há muitos anos e ele faz parte da nossa evolução.
O jejum intermitente (JI) inclui padrões alimentares nos quais o indivíduo permanece por períodos prolongados de tempo (por exemplo, 12 a 48h) com pouca ou nenhuma ingestão energética e períodos intermédios de ingestão alimentar normal.
Pesquisas com ratos e camundongos mostram que o JI têm efeitos benéficos profundos em distúrbios relacionados à idade, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares, câncer e em distúrbios neurológicos tais como a doença de Alzheimer e o Parkinson.
Estudos com humanos mostram que o JI (por exemplo, restrição de 60% em 2 dias por semana ou em dias alternados) em indivíduos normais ou com sobrepeso demonstraram eficácia para perda de peso e melhorias em vários indicadores de saúde incluindo resistência à insulina e reduções nos fatores de risco para doença cardiovascular.
Como o jejum intermitente funciona?
O JI deve feito e programado sob a supervisão médica e do nutricionista. Existem diversos tipos de programas. Dois exemplos são os JI de 12h e 18h que são realizados normalmente de 1 a 3 vezes por semana. O JI de 12h é muito comum, nele o indivíduo pode fazer o jantar e realizar a primeira refeição do dia seguinte apenas no almoço. Segundo a nutricionista Luna Azevedo “o jejum não deve ser feito por qualquer pessoa e, de forma alguma, sem orientação do nutricionista sob risco de fraqueza, hipoglicemia e pode desencadear transtornos alimentares“.
Os mecanismos celulares e moleculares pelos quais o JI melhora a saúde e neutraliza os processos de doença envolvem a ativação de vias de sinalização de resposta ao estresse celular adaptativo que melhoram a saúde mitocondrial, o reparo do DNA, expressão dos fatores SIRT-1 e CPT-1 e a autofagia celular.
O estudo recente de Longo et al (2016) mostra que três dias de jejum pode agir na regeneração do sistema imunológico. Cientistas da Universidade da Califórnia do Sul dizem que a descoberta pode ser particularmente benéfica para pessoas que sofrem de distúrbios imunológicos ou em pacientes com câncer em quimioterapia.
Ele também pode ajudar os idosos cujo sistema imunológico se torna menos eficaz com a idade, tornando mais difícil para eles para combater mesmo doenças comuns. “O jejum leva a estimulação das células-tronco a formação de novos leucócitos (células brancas do sangue), essencialmente regenerando todo o sistema imunológico”, afirma o professor Valter Longo, Professor de Gerontologia e Ciências Biológicas da Universidade da Califórnia.
Qualquer pessoa pode fazer o jejum?
Não há nenhuma evidência de que o jejum seja perigoso ou possa causar dano a saúde, no entanto, quando ele é feito sem acompanhamento médico alguns efeitos colaterais podem surgir, incluindo desmaios, hipoglicemia, sonolência e fraqueza intensa. Lembre-se que qualquer intervenção dietética deve ser realizada apenas sob a orientação de um médico e do nutricionista. Saúde é coisa séria!
Por Dr. Guilherme Renke – Médico pós-graduado em endocrinologia e metabologia da Nutrindo Ideais e colunista da página Eu Atleta – Globo.com
Referências:
1) Longo et al. Impact of intermittent fasting on health and disease processes. Ageing Res Rev. 2016 Oct 31. pii: S1568-1637(16)30251-3.
2) Peter R et al. Estimates of the relative and absolute diurnal contributions of fasting and post-prandial plasma glucose over a range of hyperglycaemia in type 2 diabetes. Diabetes Metab. 2013 Sep;39(4):337-42.
